Wunderkammer: o espaço em canela, madeira e China

 

Na exposição PAUSA - a decorrer no Edifício AXA, poderá conferir Wunderkammer nas peças escultóricas de José Andrade.

No espaço I observam-se transladações de partes de objectos em que a sua quebra resultou numa partição - a decapitação do antílope a que dei ênfase alongando-lhe o pescoço, o desintegrar das caixas de canela, que evidenciei pela sua projecção das suas faces relativamente às caixas-réplica colocadas no centro de cada uma das peças que servem às originais de estrutura, a cabeça Khmer, que embora se tenha desconstituído num processo de queda, se separou projectando-se lateralmente, e dividindo-se frontalmente no rosto, o que, e embora não se tenha separado completamente, coloquei em evidência abrindo-lhe e prolongando-lhe as fendas resultantes do embate.
Momentos de destruição congelados. Os vasos Song encontram-se em permanente quebra pela sua reorganização que acentua a explosão da sua forma original.
A dama Tang, em queda constante, aponta uma inevitabilidade passada, colocando em ênfase a sua fragilidade matérica, e simultaneamente a dos fios que ligam as suas partes tripartidas.

O espaço II não visa de qualquer modo a reconstituição. Antes a destruição pela destruição. Aqui utilizam-se objectos já cicatrizados, numa fixação pelo degradado, pelo quebrado, desgastado, destruído pelo tempo e pelo uso.
Este espaço reúne três momentos. O primeiro, a agressão e destruição constante do fogão de cozinha, presente no espaço, esmagado, e ladeado pelas marretas usadas para o desmantelar, juntamente com gravação em repetição contínua do som registado dessa acção.
O lixo recolhido, sobreposto, arremessado, uma aglomeração de elementos degradados, sujos e amontoados, uma tentativa de dar corpo ou transportar para o espaço uma efígie dos depósitos de desperdícios.
Por fim, as câmaras CCTV suspensas simulam a sua funcionalidade anterior pela utilização de luzes LED em substituição das suas lentes, apresentam-se como espectros, que por meio de uma associação mental não deixam de evocar um sentimento de invasão, entre outros corpos de câmaras sem qualquer lente, não funcionais - todas elas igualmente lixo.
Este espaço representa um esforço em reunir uma pequeno conjunto que possa servir como ilustrativa dessa infindável, vertiginosa lista que é o despojo industrial.

"(...) As wunderkammern, ou seja, as câmaras das maravilhas, ou os gabinetes de curiosidades, precursores dos nossos museus de ciências naturais, onde alguns tentavam recolher sistematicamente tudo aquilo que deve ser conhecido e outros procuravam collecionar aquilo que parecesse extraordinário ou inaudito (...)"

- em "A Vertigem das Listas", Umberto Eco